sábado, 18 de abril de 2009

O carma de todas as Marias

O sol insistia em nascer mais uma vez. Pela brecha da janela um raio de luz tocava o rosto de Maria, forçando a moça a se esconder nos lençóis ainda perfumados com a fragância barata do marido. Mais um despertar árduo seguido da teimosia do braço que estirava-se na direção do lado dele da cama de casal. E a surpresa triste e eterna que não deveria ser mais surpresa: o vazio, da cama no peito.
Depois a pergunta dilacerante de todos os últimos dias, como conseguiria seguir a sua vida, se a sua vida sempre foi a dele? Como soava espantosa essa facilidade com que as pessoas trocavam de rotina, de lar, de esposa. Havia na humanidade uma eterna busca pelo par ideal, uma eterna troca de amores e amantes. Não era tão injusto quanto parecia, mas para isso era preciso está na função de quem troca, não de quem foi trocado. A verdade é que pareciam cartas de baralho rondando pelos ares, um eterno retorno.
Sentou na mesa redonda da cozinha e leu o jornal tomando seu café bem devagar. Era sábado ensolarado, a vista da varanda escancarava o infinito azul do mar, as cangas coloridas das moças bonitas pareciam enfeitar o visual. Mas não tinha vontade de sair da toca. O espelho gritava a sua magreza, as olheiras das noites mal dormidas e das lágrimas abafadas.
Maria sabia o que era certo, equilibrado, sensato. Mas do que adianta apenas saber o que tem que ser feito, ler sábios escritores tomando para si lições de suas palavras... Tudo fica guardado, de vez em quando é relembrado, mas nunca se concretiza. A opção é sempre pelo caminho tortuoso, sofrido, que nada tem a acrescentar. Simplesmente não é possível entender essa sina, esse carma.
A moça jamais seria a mesma, embora quisesse mesmo voltar a ser ela mesma. Sem aquele peso que era pensar involuntariamente no amante. Ex amante. Pois tudo o que fazia, por todos os lugares que passava, fragmentos de um filme sem volta situava-se estrategicamente em alguma parte de seu cérebro.
Então, voltou para a cama, abraçou os malditos lençóis e mergulhou em mais um livro triste com a esperança de que um dia aquelas palavras possam lhe fazer bem.