Mariana caminhava sozinha e não sabia o seu destino. Também, nem queria saber. Qualquer destino que não fosse aquele que teria ao lado daquele miserável já era digno. Caminhava devagar, como que pra dá tempo ao tempo, a fim de que ele a presenteasse com uma idéia.
Mesmo assim, sua mente era um emaranhado de pensamentos. Antes confusos, agora se encaixavam de forma tão sublime como um enorme quebra-cabeças inteiramente pronto, peça à peça no seu exato lugar.
A jovem trazia no peito uma sensação nunca experimentada antes. Hora tomada por um repúdio sobre si mesma, por uma ira, hora desesperada quando lhe ocorria todo o processo de um recomeço a qual era obrigada a pensar, depois de cinco anos acorrentada ao homem que achava ser quem não se era.
Pedro, à primeira vista, parecia um cara simples, a olhava nos olhos em intervalos curtos, parecia que estava não somente a fim, mas que sabia de algum modo quem era Mariana, o que sentia e o que buscava. Ela caiu na armadilha da própria idealização, e por isso é culpada e paga agora pelo vacilo. Não apenas um vacilo, mas pelo que ele causou. Impressionante como um descuido age. Está sem véu, mas de alguma maneira não é nítido.
Quando a jovem aprendiz desligou-se dos perigos e pôde se entregar sem medo, eis que ele aparece. O seu homem não era mais seu, não podia mais aconchegar-se naquele olhar porque ele mudou, conseguiu ser igual aos outros olhares superficiais. Pior, o tempo desviou o olhar que Mariana tinha certeza ser seu.
Na verdade, pensara caminhando que fizera tudo errado. Tudo não, pois tudo é muito e ele fez a maior parte da tragédia. O drama tinha ficado por sua parte. Não tinha como não haver espaço para o drama nessa história. Só não ia ser por parte de Pedro que ele viesse à tona.
Veio à cabeça, quase que por epifania, que talvez admirasse esse cara. Ele se sensibilizava com as coisas certas nas horas certas, nunca quando achava-se certo, o orgulho o impedia de extender a mente para que percebesse outras perspectivas. Mas não, a única que ele conseguia ver era adotada e eleita irrevogável. Além disso, sempre teve o pé no chão, foram raras a vezes em que se permitia sonhar alto, e quando ela o fazia, ele a puxava de volta para realidade, como se, no fundo, quisesse salvá-la de toda confusão a qual estava imersa agora. Nunca havia pensado nisso durante todo esse tempo.
Tudo o que precisava agora era do orgulho desse cara. Bem mais que isso, precisava tirar forças de algum lugar de dentro ou de fora de si e seguir o caminho. Não podia parar e nunca, nunca, voltar atrás.
Pedro não era miserável por traição, vício ou agressão. Era miserável por ter mostrado o quão fraco era o seu sentimento por Mariana, e, principalmente por ter deixado o tempo roubar o olhar que ela confiou como seu. O olhar fez surgir o amor, quebrou-se o medo...
E de repente pensou: de que vale toda essa ilusão quando se descobre que é ilusão?
Mariana esboçou um sorriso de lado, e continuou o caminho... Dessa vez sabia o seu destino. Não parou, e jamais voltou atrás, pois já sabia o que tinha lá. Buscava agora o desconhecido.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Vá embora logo, ano velho. É tempo de renovação e esperança!
Nunca mais eu estive por aqui, não sei porque hoje, agora, decidi escrever alguma coisa. Talvez porque o ano esteja acabando, o Natal já é amanhã ou meu aniversário esteja se aproximando com tamanha pressa. Talvez nada disso seja o motivo, ou talvez sejam todos eles.
O nosso mundão aí fora sofrendo, com todas essas enchentes causadas não pelas chuvas, mas sim pela carência de infra-estrutura no nosso Brasil, meu povo tendo os corações mastigados por notícias sangrentas e absurdas, sofrendo junto com a natureza, pelo descaso e pela ambição.
E mesmo com tudo isso acontecendo, mesmo com uma efervescência assombrosa do outro lado da minha parede, pra gente ver como o ser humano é egoísta, estou eu aqui a escrever sobre mim. Meus momentos, minhas angústias, minhas alegrias e curiosidades.
Capricorniana que sou, leal, responsável, franca... várias vezes até muito franca... e por fim um tanto velha e ranzinza, trago não só a culpa que carrego nos ombros por fazer parte da única espécie que não se preocupa com o futuro e perpetuação dela mesma, pelo contrário, contribui para o próprio desaparecimento, mas a culpa por conseguir julgar o que está errado e ficar tentando revolucionar o mundo sentada no sofá assistindo o jornal. Não ter consciência de como as estruturas de um sistema funcionaram durante a história e funcionam hoje ao seu redor não me parece tão inaceitável do que apenas criticar tudo a todo tempo e não se mover na busca por mudanças.
Acho que falta no meu povo, alvo fácil de manipulações, um pouquinho de flexibilidade, um esforço coletivo para enxergar mais adiante, nas entrelinnhas, procurar definir bem o papel de cada espécie no planeta, incluir-se no ecossistema eliminando a superioridade ilusória e infantil. Deve haver um jeitinho brasileiro de ver o outro lado da moeda, e que o que parece correto talvez possa não ser...
Por favor, não podemos descartar mais as opiniões de ambientalistas e especialistas da natureza sobre as consequências da expansão das obras humanas, não devemos rebaixar tais opiniões e ridicularizá-las como a mídia faz.
E por falar que sinto-me culpada por olhar muito para meu umbigo, não posso fugir da minha natureza, muito menos quando estou perto de completar 20 anos! Não são mais 18 aninhos, 19 aninhos, são 20 anos! Duas décadas. Sempre entendi quando dizem que a vida é muito curta e pequena. Pois é assim mesmo, os rótulos pesam mais que o próprio tempo, incrível.
Nesse ano de 2009 eu quero MENOS. Menos tragédias, menos descaso, menos atropelos, menos mortes, menos pobreza, menos tumulto. Menos ódio, menos humilhação, menos preocupação, menos fome, menos AIDS. Eu quero menos futilidade, menos tristeza, menos perdas, menos disputa, menos indiferença.
Eu só quero MAIS AMOR. Com essa palavrinha misteriosa o ser humano se restabelece, se renova, anda no caminho certo sempre.
Estou me despedindo no embalo da atmosfera instigante que envolve a promessa de um ano Mais.
Um abraço e um beijo de Natal e Ano Novo!
sábado, 4 de outubro de 2008
Vida Imensa
Primeiro queria deixar registrado mais um parabéns pro meu namorido que está fazendo 23 aninhos hoje, mesmo sabendo que ele não visita blogs, nem o meu! Pois bem, hoje é um dia feliz. Eu o desejo tudo de mais prazerozo, a concretização de todos os seus sonhos. E eu sei que ele tem muitos. E ele sabe que eu o amo junto a toda essa bagagem de sonhos, isso é muito importante.
E agora um dos meus instantes efêmeros que sempre se repetem...
Todo mundo já deve ter pensado que presenciou coisas absurdas na vida e eu não sou diferente. Existem coisas que eu não entendo como eu consigo entendê-las. Talvez eu deva dizer que finjo entendê-las. É certo que é fundamental que dentro da vida temos que saber como funciona sua manutenção, que muitas vezes custa bem caro.
Obrigação é uma daquelas coisas que fazem parte da existência de quem as engole e digere com tranquilidade, de forma trivial. A minha existência não abriga o seu efeito. Não há como continuar tentando se equilibrar na linha torta que obriga a ser quem não se é.
A minha vontade é de jogar uma bomba nuclear, para não ter que morrer sozinha, de preferência bem perto da falta de respeito que afeta algumas pessoas.
Nem que eu queira isso se resume ao egoísmo bestial de um ser humano, é muito mais que isso, é uma falta inata de caráter, de fidelidade e de consideração ao próximo. Eu não diria nem falta de amor. AMOR é uma desilusão daquilo que realmente é o amor, segundo Lispector. E eu concordo com ela!
A superficialidade que emerge aos olhos dos outros não chega nem ao começo do que se esconde entre minha mente e alma. Se conseguissem ver por trás da roupa, da pele, dos órgãos... uma dimensão quase abstrata munida de idéias e atos correspondentes, agentes da mais complexa subjetividade que me faz ser.
Bárbara Pacheco
E agora um dos meus instantes efêmeros que sempre se repetem...
Todo mundo já deve ter pensado que presenciou coisas absurdas na vida e eu não sou diferente. Existem coisas que eu não entendo como eu consigo entendê-las. Talvez eu deva dizer que finjo entendê-las. É certo que é fundamental que dentro da vida temos que saber como funciona sua manutenção, que muitas vezes custa bem caro.
Obrigação é uma daquelas coisas que fazem parte da existência de quem as engole e digere com tranquilidade, de forma trivial. A minha existência não abriga o seu efeito. Não há como continuar tentando se equilibrar na linha torta que obriga a ser quem não se é.
A minha vontade é de jogar uma bomba nuclear, para não ter que morrer sozinha, de preferência bem perto da falta de respeito que afeta algumas pessoas.
Nem que eu queira isso se resume ao egoísmo bestial de um ser humano, é muito mais que isso, é uma falta inata de caráter, de fidelidade e de consideração ao próximo. Eu não diria nem falta de amor. AMOR é uma desilusão daquilo que realmente é o amor, segundo Lispector. E eu concordo com ela!
A superficialidade que emerge aos olhos dos outros não chega nem ao começo do que se esconde entre minha mente e alma. Se conseguissem ver por trás da roupa, da pele, dos órgãos... uma dimensão quase abstrata munida de idéias e atos correspondentes, agentes da mais complexa subjetividade que me faz ser.
Bárbara Pacheco
sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem “O que estão ensinando a ele?” De autoria de Monica Weinberg e Camila Pereira, foi baseada em pesquisa sobre qualidade do ensino no Brasil.
Lá pelas tantas há o seguinte trecho: “Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado".
Curiosamente, entre os especialistas consultados está o filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp. Ele é o autor de um artigo publicado na Folha, em 1990, cujo título é “Ceausescu no Ibirapuera”. Sem citar o Paulo Freire, ele fala do Paulo Freire. É uma tática de agredir sem assumir. Na época Paulo, era secretário de Educação da prefeita Luiza Erundina. Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte carta de repúdio:
"Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE -- e um dos maiores de toda a história da humanidade --, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas, camufladamente, age em nome do reacionarismo desta".
Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.
A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista. Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que certamente para se sentirem e serem parceiras do "filósofo" e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual.
Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.
Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas, sobretudo pelo trabalho de meu marido - na qual esta política de distribuição da renda se baseou - que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela.
Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.
Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu "Norte" e "Bíblia", esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.
Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!
São Paulo, 11 de setembro de 2008 Ana Maria Araújo Freire".
Mas que carta linda e inteligente! E como o nosso país ainda lê um tipo de jornalismo atrasado, desprovido de neutralidade e imparcialidade, e ainda sujo de tal forma que alimenta o sistema deturpado reacionário!
Leu na VEJA, azar o seu.
Fotografia: Bárbara Pacheco.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Estágio Construtivo
A humanidade precisa compreender de uma vez por todas que os problemas sempre existiram. Ora, o primeiro hominídio não tem menos ou mais problemas do que eu e você. O sistema de comunicação desenvolvido por nossa espécie é bastante complexo e está sempre complicando mais, ao ponto de acharmos cada vez mais palavras/expressões/gestos para representar emoções desfavoráveis. E pensando assim trago aqui mais um problema, como se não bastasse.
Todo o mundo tem problemas e cada um deles são maiores que todos os outros para a cabeça de quem os abriga. Em determinado momentos da vida estamos nós lá, com "O monstro mais temível da face da Terra" dormindo e acordando agarradinho na mesma cama, como se fosse um daqueles caras feios e grudentos com quem tivemos o azar de se envolver, graças a um porre da noite passada. Só que esse cara passa dias e até meses pendurado no seu pescoço. E pesa mais que a Cruz nas costas de Jesus Cristo. Mas e aí, o que fazer com ele?
As pessoas perdem o curto tempo de suas vidas tentando achar soluções ilusórias para os seus problemas. Se elas soubessem que eles não pedem nada mais que um tempo para se estabelecerem, depois de surgirem, e isso não significa perda e desespero, uma vez que o que é pedido também se ganha, talvez viveriam mais e melhor. Solução não é, ao contrário do que muitos acham, o sumiço do problema. Solução é consolo, deixar rolar, esperar a poeira baixar, conhecer antes de agir e, por que não, conformar-se diante do fato de não poder fazer nada. Solucionar um problema é um processo que passa por etapas doloridas, preocupadas e tensas. Antes disso, é ser inteligente e entender que não se pode resolver todos eles, às vezes nenhum deles, mas pode deixá-los pra lá, simplesmente. Meu argumento não parece lógico, mas é preciso chegar a um estágio adulto onde há a percepção de que os problemas são diários, deixando marcas de expressão na testa, olheiras e rugas de choro. Desde quando nasci tenho convivo com problemas os quais muitos nunca tiveram solução, mas passaram. Não é a mesma coisa que empurrar a vida com uma barriga de Chopp, é apenas aprender a separar as horas, porque como mamãe, papai, titia, titio, vovô e vovó já diziam: tem hora pra tudo na vida. E sabe de uma coisa, é mesmo! Até para as inquietações, muitas vezes banais, da vida humana, se tem hora. Não é justo que elas tomem o tempo da vida como um todo, principalmente o tempo do sorriso, da descontração. É este o tempo responsável pelo esquecimento de tudo o que leva ao caos.
sábado, 31 de maio de 2008
Volta e meia
Ela era qualquer coisa entre o bem e o mal, qualquer coisa entre a vida e a morte. Sempre "entre" uma coisa e outra e não a própria coisa ou a outra, que era para poder transitar, está sempre em movimento, era uma metamorfose ambulante, Raul diria sobre ela. Não se sentia especial, também não se considerava a pior dos seres. Chegava mesmo a não lembrar dessas complexidades da subjetividade humana, bastava viver, não bastava sobreviver.
Ela exalava um perfume diferente, era um cheiro natural de primavera, um tanto sutil, mas que não dava para associá-lo a nenhum outro. Conhecia todos os atalhos de tudo o que a fazia sorrir e explorava um por um diante de cada situação. O desfavorável é inevitável, até ela sabia, porém era bastante aproveitável, tinha que admitir o que enxergava. Admitia e reciclava os destroços aparentemente inúteis e o fazia através de idéias que surgiam rastejando em seus pensamentos.
Acreditava no possível e não saberia dizer o que era impossível. A impossibilidade é um obstáculo facilmente ultrapassado quando se pode transceder o real. Ela podia. Admitia a existência como a efemeridade suprema, uma eterna ilusão dentro da qual diversas sensações eram experimentadas. As boas e ruins. Todas trituradas e depois afinadas, convergindo para a essência da alma, refletindo nas aparências e opniões.
Ela vivia para si mesmo, no sentido mais egoísta da afirmação. No entanto, as suas sensações experimentadas ao longo de toda jornada oscilavam como folhas que caem nas tardes de outono.
O mundo da lua também era o mundo dela. As fotografias antigas espalhadas por todo o quarto a faziam ouvir a imensidão do tempo, o vaivém da concretização, a natureza íntima de sua constituição. Gostava de tocar a chuva caindo participante da dimensão a qual ninguém pode compreender, o intocável. Sabia da beleza que estava por trás das coisas do cotidiano, da rotina que não era seguida.
De repente estava aos quarenta anos, quatro décadas inteiras de vida. Aquela outra passou por ela sem que ela percebesse várias vezes nos últimos anos, tentou chamar-lhe a atenção através da nostalgia que assola os desesperados, mas jamais conseguiu voltar novamente para o seu lar. As idéias da outra foram substituídas, não há nelas a credibilidade das novas, porque fazem parte de uma utopia. E utopias são fantasias, são para os fracos, para os jovens e para os que pensam em mudar o mundo.
Ela exalava um perfume diferente, era um cheiro natural de primavera, um tanto sutil, mas que não dava para associá-lo a nenhum outro. Conhecia todos os atalhos de tudo o que a fazia sorrir e explorava um por um diante de cada situação. O desfavorável é inevitável, até ela sabia, porém era bastante aproveitável, tinha que admitir o que enxergava. Admitia e reciclava os destroços aparentemente inúteis e o fazia através de idéias que surgiam rastejando em seus pensamentos.
Acreditava no possível e não saberia dizer o que era impossível. A impossibilidade é um obstáculo facilmente ultrapassado quando se pode transceder o real. Ela podia. Admitia a existência como a efemeridade suprema, uma eterna ilusão dentro da qual diversas sensações eram experimentadas. As boas e ruins. Todas trituradas e depois afinadas, convergindo para a essência da alma, refletindo nas aparências e opniões.
Ela vivia para si mesmo, no sentido mais egoísta da afirmação. No entanto, as suas sensações experimentadas ao longo de toda jornada oscilavam como folhas que caem nas tardes de outono.
O mundo da lua também era o mundo dela. As fotografias antigas espalhadas por todo o quarto a faziam ouvir a imensidão do tempo, o vaivém da concretização, a natureza íntima de sua constituição. Gostava de tocar a chuva caindo participante da dimensão a qual ninguém pode compreender, o intocável. Sabia da beleza que estava por trás das coisas do cotidiano, da rotina que não era seguida.
De repente estava aos quarenta anos, quatro décadas inteiras de vida. Aquela outra passou por ela sem que ela percebesse várias vezes nos últimos anos, tentou chamar-lhe a atenção através da nostalgia que assola os desesperados, mas jamais conseguiu voltar novamente para o seu lar. As idéias da outra foram substituídas, não há nelas a credibilidade das novas, porque fazem parte de uma utopia. E utopias são fantasias, são para os fracos, para os jovens e para os que pensam em mudar o mundo.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Indignidade do Sistema
Eu já tinha acordado com o pé esquerdo, com sono, indisponível para o mundo, de saco cheio de todas as pessoas. São nesses dias que a bruxa está solta, acreditem. Essa desgraçada suga energias de todos os setores do espírito, desde o pessoal e subjetivo, dando um rolé no social a ponto de leva-lo à introspecção irresistível, e finalmente desembocando no causador de todo o mal da espécie humana: o econômico. E ela escolhe desses dias assim bem feios, com o céu cinzento, o sol de ressaca e as nuvens tentando tapar o sol com a peneira.
Acontece que eu estava inserida em tal contexto quando decidi ignorar minhas premonições, e quem me conhece sabe que sou arrodeada por elas, tá, tudo bem que às vezes se enganam, mas o fato é que as ignorei e fui em direção à minha rotina de faculdade, de pegar ônibus e de ir estressada com meus pensamentos mesquinhos de interesse puramente particular. Cheguei no ponto de ônibus o qual não é de costume ser este o que me deixa entediada todo dia, nele eu só espero alguns dias perdidos no mês, quando eu estou na casa da minha mãe, porém crio raízes esperando o único ônibus que entra na Universidade quando estou ali. Sentei no banco apertado, no último lugar vago destinado às pessoas de grande paciência. Depois de alguns minutos percebi dois caras de aproximadamente 17 ou 18 anos que me olhavam sem cerimônia, e olhavam, como se fossem portadores da poderosa visão de raio X do SuperHomem, para a minha bolsa. Eu me assustei toda quando percebi principalmente que eles não estavam ali para pegar um ônibus, mas sim aquele ônibus que eu ia entrar. Resultado: o dito cujo demorou tanto, mas tanto, que os rafamés cansaram e resolveram, como num passe de mágica, tirar o cano ali mesmo, na frente de umas quinze pessoas, e apontá-lo para mim. Véi, apenas para MIM! E eu, coitada de mim, meu deus, achando tudo aquilo um filme, só que real, não dava pra não entender que era real, fiquei sem nenhuma expressão, em choque. Quando ouvi o barulhinho da ficha caindo me desesperei. Muitas pessoas me ajudaram com um copinho de açúcar aqui, uma ligação a cobrar ali, e finalmente dois caras encima de uma única bicicleta que vinha desfilando pelo meio da ruazinha, muito suspeitos ao meu ver, e que o universo me perdoe se estiver errada, vieram me entregar a bendita bolsa, sem o celular, sem o carregador dele e sem meia dúzia de cigarros. Não levaram dinheiro, não quiseram meu relógio de custo mediano que estava dentro da bolsa. Agora o que eu aprendi dessa lição toda é que: companheiros que andam todos os dias nos ônibus mais perigosos da cidade, não comprem celulares legais, com câmera, mp3 e Bluetooth, você acaba dando de presente muito em breve para alguém que você nunca viu.
Acontece que eu estava inserida em tal contexto quando decidi ignorar minhas premonições, e quem me conhece sabe que sou arrodeada por elas, tá, tudo bem que às vezes se enganam, mas o fato é que as ignorei e fui em direção à minha rotina de faculdade, de pegar ônibus e de ir estressada com meus pensamentos mesquinhos de interesse puramente particular. Cheguei no ponto de ônibus o qual não é de costume ser este o que me deixa entediada todo dia, nele eu só espero alguns dias perdidos no mês, quando eu estou na casa da minha mãe, porém crio raízes esperando o único ônibus que entra na Universidade quando estou ali. Sentei no banco apertado, no último lugar vago destinado às pessoas de grande paciência. Depois de alguns minutos percebi dois caras de aproximadamente 17 ou 18 anos que me olhavam sem cerimônia, e olhavam, como se fossem portadores da poderosa visão de raio X do SuperHomem, para a minha bolsa. Eu me assustei toda quando percebi principalmente que eles não estavam ali para pegar um ônibus, mas sim aquele ônibus que eu ia entrar. Resultado: o dito cujo demorou tanto, mas tanto, que os rafamés cansaram e resolveram, como num passe de mágica, tirar o cano ali mesmo, na frente de umas quinze pessoas, e apontá-lo para mim. Véi, apenas para MIM! E eu, coitada de mim, meu deus, achando tudo aquilo um filme, só que real, não dava pra não entender que era real, fiquei sem nenhuma expressão, em choque. Quando ouvi o barulhinho da ficha caindo me desesperei. Muitas pessoas me ajudaram com um copinho de açúcar aqui, uma ligação a cobrar ali, e finalmente dois caras encima de uma única bicicleta que vinha desfilando pelo meio da ruazinha, muito suspeitos ao meu ver, e que o universo me perdoe se estiver errada, vieram me entregar a bendita bolsa, sem o celular, sem o carregador dele e sem meia dúzia de cigarros. Não levaram dinheiro, não quiseram meu relógio de custo mediano que estava dentro da bolsa. Agora o que eu aprendi dessa lição toda é que: companheiros que andam todos os dias nos ônibus mais perigosos da cidade, não comprem celulares legais, com câmera, mp3 e Bluetooth, você acaba dando de presente muito em breve para alguém que você nunca viu.
terça-feira, 27 de maio de 2008
A presença é o parâmetro da saudade
Lembro-me, não raras vezes, da expressão calma do seu rosto sobre meu peito, do olhar vago e ao mesmo tempo tão presente e sempre o primeiro a detectar _antes mesmo de mim_ as minhas vontades.Lembro a forma doce que me presenteava um sorriso e da sensação de um bem-estar profundo quando nós sorríamos juntos, as lágrimas tímidas que insistiam em permanecer alí, intactas, quando as palavras bonitas não eram consideradas descartáveis, porque elas traduziam os sentimentos mais intocáveis. Nada era inefável.Lembro-me dos nossos desejos conjuntos como no dia que queríamos chocolates suíços e das nossas disputas para comer o último bombom da caixa. Do dia em que nós decidimos juntar a galera toda pra jogar conversa fora em qualquer bar e justamente nós fomos os únicos a não ir, só pra ficar na sua casa, grudadinhos no sofá, ao som dos pingos de chuva na janela e assistindo um filminho velho na TV. Um dos beijos melhores da minha vida aconteceu naquela noite.Lembro, com toda clareza, todos os detalhes de todos os movimentos das nossas noites infinitas _sim, somente nossas, os únicos seres existentes e tão complementares_ as quais chegavam a serem dias tão rapidamente. O seu cheiro, aquela mistura equilibrada de uma vontade louca de me descontrolar com uma vontade sensata de abraçar, me atingia o cérebro, na parte onde o esquecimento da realidade era penetrável.Lembro-me da sua incrível habilidade de lidar com minhas preocupações banais, mas lembro de nunca ter perdido um dia inteiro para elas. Você sempre esteve com sua mão na minha mão, no meu cabelo, na minha nuca... Tudo isso para que eu não me arrependesse de ter tido um dia a menos. E eu nem sabia que cada dia estava sendo um dia a menos na sua vida, ao invés da minha.Lembro, e se você estivesse aqui poderia jurar por tudo que eu não lembraria, depois de dois longos anos, mas lembro perfeitamente das suas lágrimas quando escapei detalhes de meu funeral: a música, a doação de órgãos, as cinzas, o rio em que seriam jogadas... Detalhes desagradáveis que uma vez na vida deve ser dito a alguém que te conheça o bastante.E quem imaginaria, meu amor, que você partiria primeiro... E tão rápido! Levo a saudade, encostada em meu peito, em vez do teu rosto. O teu cheiro nunca mais senti senão em sonho: uma doce e agradável ilusão de um sentido. Os últimos chocolates agora sempre sobram. Até tento, mas não faço mais questão deles. A minha realidade nunca mais foi adormecida ou enganada e por fim tem sido dura. Sim, as lembranças tentam me acalmar, mas quase sempre são ineficazes; acabam por deixar um enorme vácuo dolorido, ainda. O vazio provém da tua falta. Isso sim é inefável.
Pronto, esse é o texto do qual falei o post passado. Estava esquecido em outro blog, mas tá aí. Um dos meus draminhas preferidos até agora.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
"Nada vem de graça, nem o pão, nem a cachaça"
Zeca Baleiro ao cantar isso, jamais pensou o quão certo havia sido o que tinha dito, com certeza. Ao escutar também essa música pela primeiríssima vez eu não vi nada de tão extraordinário, porque parecia óbvio. Mas é mais do que isso. É extremamente filosófico. Extremamente expansivo e talvez a maioria das pessoas concordem comigo. Tudo tem um preço, e arrisco a dizer que até pra sonhar se paga caro. Claro, há uma repressão contínua, há os esforços para realização, há a inimizade da baixa estima, a força de vontade firme, o cansaço, as decepções. Que fique bem claro que o que proponho não se insere numa perpectiva apenas material, me refiro principalmente a uma atmosfera abstrata, como por exemplo os sentimentos. Se fosse apenas numa realidade material o texto sairia como bestial, já que é mais do que claro que numa sociedade diretamente originada da estrutura capitalista e sem jamais conhecer a cultura pobre em tecnologia, mas rica em valores verdadeiros, não existiria qualquer bem que para usurfruí-lo não tivesse que pagar monetariamente. Assim sendo, refiro-me mais curiosamente ao assunto relacionado a alma. O Amor, por exemplo. O Amor e toda essa idealização boa e salvadora da humanidade que o rodeia, nada mais é do que um produto pra ser comprado/trocado/consumido. Chamaria mais profundamente de subproduto, já que anda camuflado e, portanto, fingindo estar como cumpridor de uma missão tão enorme (melhorar o mundo), quanto a sua cara de pau. Apenas quem enxerga por trás das convicções, caro leitor, conseguirá armazenar, arrumar, entender e projetar o que está sendo dito. Como dizia Nietzsche: "As verdadeiras inimigas da verdade são as convicções" e não as mentiras. Essas estão escancaradas por aí; é só abrir os olhos. Mas as convicções... É preciso muito mais! INVESTIGAÇÃO e QUESTIONAMENTO. Não aceitar os conceitos prontos. Não aceitar que o amor seja encarado como um sentimento gentil, como o super herói valente e salvador dos pobres. É justamente através dele que acontece as injustiças. Os pobres só são pobres por causa desse amor, dessa caridade suja e ofuscada, dessa esmolinha concebida por cada um. De novo Nietzsche, todo amor é amor próprio, todo serviço é auto-serviço. O ser humano é egoísta por si mesmo e jamais sentirá o conceito de amor atual nas suas entranhas. É tudo muito bonito, tudo muito fácil. Infelizmente cobramos o "amor" que cada um sente por nós e somos cobrados o tempo todo, imperceptivelmente, por esse super herói grotesco. A partir daí percebe-se que tudo o que chamávamos de bom torna-se duvidoso, torna-se a natureza nojenta do homem. E aí nos perguntamos se é nessa hora que o mal vira bem e virse-versa.
- Esse texto já foi publicado por mim em outro blog, o bilhetinho-azul. Meu codinome era flor de lis nele, e apenas postei mais outro texto fora esse, que depois coloco aqui e do qual eu gosto muito.
domingo, 25 de maio de 2008
Irrealidade miserável

Às vezes me olho por fora, como uma outra pessoa, um eu interior incapaz de se sensibilizar com qualquer parte de si. Em um instante me encurralo na interrogação de qual seria o eu real, livre das aparências e das mentiras ditas para o próprio consolo. Cheguei a pensar que essa era uma parte desnecessária, caso estivesse armada de um irreal forte, mas caí de um penhasco quando percebi o grau de realidade a qual o mundo se perdeu. A minha redenção é feita na afirmação de que realmente o real é fundamental para a digestão das transformações futuras. Iludir-se menos e viver mais deve ser uma receita feita por algum chapado consciente. O que me resta é mastigar os pedaços de realidade que me sobra.
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