quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Pós-experiência

Mariana caminhava sozinha e não sabia o seu destino. Também, nem queria saber. Qualquer destino que não fosse aquele que teria ao lado daquele miserável já era digno. Caminhava devagar, como que pra dá tempo ao tempo, a fim de que ele a presenteasse com uma idéia.
Mesmo assim, sua mente era um emaranhado de pensamentos. Antes confusos, agora se encaixavam de forma tão sublime como um enorme quebra-cabeças inteiramente pronto, peça à peça no seu exato lugar.
A jovem trazia no peito uma sensação nunca experimentada antes. Hora tomada por um repúdio sobre si mesma, por uma ira, hora desesperada quando lhe ocorria todo o processo de um recomeço a qual era obrigada a pensar, depois de cinco anos acorrentada ao homem que achava ser quem não se era.
Pedro, à primeira vista, parecia um cara simples, a olhava nos olhos em intervalos curtos, parecia que estava não somente a fim, mas que sabia de algum modo quem era Mariana, o que sentia e o que buscava. Ela caiu na armadilha da própria idealização, e por isso é culpada e paga agora pelo vacilo. Não apenas um vacilo, mas pelo que ele causou. Impressionante como um descuido age. Está sem véu, mas de alguma maneira não é nítido.
Quando a jovem aprendiz desligou-se dos perigos e pôde se entregar sem medo, eis que ele aparece. O seu homem não era mais seu, não podia mais aconchegar-se naquele olhar porque ele mudou, conseguiu ser igual aos outros olhares superficiais. Pior, o tempo desviou o olhar que Mariana tinha certeza ser seu.
Na verdade, pensara caminhando que fizera tudo errado. Tudo não, pois tudo é muito e ele fez a maior parte da tragédia. O drama tinha ficado por sua parte. Não tinha como não haver espaço para o drama nessa história. Só não ia ser por parte de Pedro que ele viesse à tona.
Veio à cabeça, quase que por epifania, que talvez admirasse esse cara. Ele se sensibilizava com as coisas certas nas horas certas, nunca quando achava-se certo, o orgulho o impedia de extender a mente para que percebesse outras perspectivas. Mas não, a única que ele conseguia ver era adotada e eleita irrevogável. Além disso, sempre teve o pé no chão, foram raras a vezes em que se permitia sonhar alto, e quando ela o fazia, ele a puxava de volta para realidade, como se, no fundo, quisesse salvá-la de toda confusão a qual estava imersa agora. Nunca havia pensado nisso durante todo esse tempo.
Tudo o que precisava agora era do orgulho desse cara. Bem mais que isso, precisava tirar forças de algum lugar de dentro ou de fora de si e seguir o caminho. Não podia parar e nunca, nunca, voltar atrás.
Pedro não era miserável por traição, vício ou agressão. Era miserável por ter mostrado o quão fraco era o seu sentimento por Mariana, e, principalmente por ter deixado o tempo roubar o olhar que ela confiou como seu. O olhar fez surgir o amor, quebrou-se o medo...
E de repente pensou: de que vale toda essa ilusão quando se descobre que é ilusão?
Mariana esboçou um sorriso de lado, e continuou o caminho... Dessa vez sabia o seu destino. Não parou, e jamais voltou atrás, pois já sabia o que tinha lá. Buscava agora o desconhecido.

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