sábado, 4 de outubro de 2008

Vida Imensa

Primeiro queria deixar registrado mais um parabéns pro meu namorido que está fazendo 23 aninhos hoje, mesmo sabendo que ele não visita blogs, nem o meu! Pois bem, hoje é um dia feliz. Eu o desejo tudo de mais prazerozo, a concretização de todos os seus sonhos. E eu sei que ele tem muitos. E ele sabe que eu o amo junto a toda essa bagagem de sonhos, isso é muito importante.

E agora um dos meus instantes efêmeros que sempre se repetem...

Todo mundo já deve ter pensado que presenciou coisas absurdas na vida e eu não sou diferente. Existem coisas que eu não entendo como eu consigo entendê-las. Talvez eu deva dizer que finjo entendê-las. É certo que é fundamental que dentro da vida temos que saber como funciona sua manutenção, que muitas vezes custa bem caro.
Obrigação é uma daquelas coisas que fazem parte da existência de quem as engole e digere com tranquilidade, de forma trivial. A minha existência não abriga o seu efeito. Não há como continuar tentando se equilibrar na linha torta que obriga a ser quem não se é.
A minha vontade é de jogar uma bomba nuclear, para não ter que morrer sozinha, de preferência bem perto da falta de respeito que afeta algumas pessoas.
Nem que eu queira isso se resume ao egoísmo bestial de um ser humano, é muito mais que isso, é uma falta inata de caráter, de fidelidade e de consideração ao próximo. Eu não diria nem falta de amor. AMOR é uma desilusão daquilo que realmente é o amor, segundo Lispector. E eu concordo com ela!
A superficialidade que emerge aos olhos dos outros não chega nem ao começo do que se esconde entre minha mente e alma. Se conseguissem ver por trás da roupa, da pele, dos órgãos... uma dimensão quase abstrata munida de idéias e atos correspondentes, agentes da mais complexa subjetividade que me faz ser.

Bárbara Pacheco

sexta-feira, 3 de outubro de 2008



Matéria tirada do site http://www.fazendomedia.com/.



Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem “O que estão ensinando a ele?” De autoria de Monica Weinberg e Camila Pereira, foi baseada em pesquisa sobre qualidade do ensino no Brasil.

Lá pelas tantas há o seguinte trecho: “Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado".

Curiosamente, entre os especialistas consultados está o filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp. Ele é o autor de um artigo publicado na Folha, em 1990, cujo título é “Ceausescu no Ibirapuera”. Sem citar o Paulo Freire, ele fala do Paulo Freire. É uma tática de agredir sem assumir. Na época Paulo, era secretário de Educação da prefeita Luiza Erundina. Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte carta de repúdio:

"Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE -- e um dos maiores de toda a história da humanidade --, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas, camufladamente, age em nome do reacionarismo desta".

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista. Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que certamente para se sentirem e serem parceiras do "filósofo" e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual.

Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas, sobretudo pelo trabalho de meu marido - na qual esta política de distribuição da renda se baseou - que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela.

Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu "Norte" e "Bíblia", esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008 Ana Maria Araújo Freire".



Mas que carta linda e inteligente! E como o nosso país ainda lê um tipo de jornalismo atrasado, desprovido de neutralidade e imparcialidade, e ainda sujo de tal forma que alimenta o sistema deturpado reacionário!

Leu na VEJA, azar o seu.

Fotografia: Bárbara Pacheco.