sábado, 31 de maio de 2008

Volta e meia

Ela era qualquer coisa entre o bem e o mal, qualquer coisa entre a vida e a morte. Sempre "entre" uma coisa e outra e não a própria coisa ou a outra, que era para poder transitar, está sempre em movimento, era uma metamorfose ambulante, Raul diria sobre ela. Não se sentia especial, também não se considerava a pior dos seres. Chegava mesmo a não lembrar dessas complexidades da subjetividade humana, bastava viver, não bastava sobreviver.
Ela exalava um perfume diferente, era um cheiro natural de primavera, um tanto sutil, mas que não dava para associá-lo a nenhum outro. Conhecia todos os atalhos de tudo o que a fazia sorrir e explorava um por um diante de cada situação. O desfavorável é inevitável, até ela sabia, porém era bastante aproveitável, tinha que admitir o que enxergava. Admitia e reciclava os destroços aparentemente inúteis e o fazia através de idéias que surgiam rastejando em seus pensamentos.
Acreditava no possível e não saberia dizer o que era impossível. A impossibilidade é um obstáculo facilmente ultrapassado quando se pode transceder o real. Ela podia. Admitia a existência como a efemeridade suprema, uma eterna ilusão dentro da qual diversas sensações eram experimentadas. As boas e ruins. Todas trituradas e depois afinadas, convergindo para a essência da alma, refletindo nas aparências e opniões.
Ela vivia para si mesmo, no sentido mais egoísta da afirmação. No entanto, as suas sensações experimentadas ao longo de toda jornada oscilavam como folhas que caem nas tardes de outono.
O mundo da lua também era o mundo dela. As fotografias antigas espalhadas por todo o quarto a faziam ouvir a imensidão do tempo, o vaivém da concretização, a natureza íntima de sua constituição. Gostava de tocar a chuva caindo participante da dimensão a qual ninguém pode compreender, o intocável. Sabia da beleza que estava por trás das coisas do cotidiano, da rotina que não era seguida.
De repente estava aos quarenta anos, quatro décadas inteiras de vida. Aquela outra passou por ela sem que ela percebesse várias vezes nos últimos anos, tentou chamar-lhe a atenção através da nostalgia que assola os desesperados, mas jamais conseguiu voltar novamente para o seu lar. As idéias da outra foram substituídas, não há nelas a credibilidade das novas, porque fazem parte de uma utopia. E utopias são fantasias, são para os fracos, para os jovens e para os que pensam em mudar o mundo.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Indignidade do Sistema

Eu já tinha acordado com o pé esquerdo, com sono, indisponível para o mundo, de saco cheio de todas as pessoas. São nesses dias que a bruxa está solta, acreditem. Essa desgraçada suga energias de todos os setores do espírito, desde o pessoal e subjetivo, dando um rolé no social a ponto de leva-lo à introspecção irresistível, e finalmente desembocando no causador de todo o mal da espécie humana: o econômico. E ela escolhe desses dias assim bem feios, com o céu cinzento, o sol de ressaca e as nuvens tentando tapar o sol com a peneira.
Acontece que eu estava inserida em tal contexto quando decidi ignorar minhas premonições, e quem me conhece sabe que sou arrodeada por elas, tá, tudo bem que às vezes se enganam, mas o fato é que as ignorei e fui em direção à minha rotina de faculdade, de pegar ônibus e de ir estressada com meus pensamentos mesquinhos de interesse puramente particular. Cheguei no ponto de ônibus o qual não é de costume ser este o que me deixa entediada todo dia, nele eu só espero alguns dias perdidos no mês, quando eu estou na casa da minha mãe, porém crio raízes esperando o único ônibus que entra na Universidade quando estou ali. Sentei no banco apertado, no último lugar vago destinado às pessoas de grande paciência. Depois de alguns minutos percebi dois caras de aproximadamente 17 ou 18 anos que me olhavam sem cerimônia, e olhavam, como se fossem portadores da poderosa visão de raio X do SuperHomem, para a minha bolsa. Eu me assustei toda quando percebi principalmente que eles não estavam ali para pegar um ônibus, mas sim aquele ônibus que eu ia entrar. Resultado: o dito cujo demorou tanto, mas tanto, que os rafamés cansaram e resolveram, como num passe de mágica, tirar o cano ali mesmo, na frente de umas quinze pessoas, e apontá-lo para mim. Véi, apenas para MIM! E eu, coitada de mim, meu deus, achando tudo aquilo um filme, só que real, não dava pra não entender que era real, fiquei sem nenhuma expressão, em choque. Quando ouvi o barulhinho da ficha caindo me desesperei. Muitas pessoas me ajudaram com um copinho de açúcar aqui, uma ligação a cobrar ali, e finalmente dois caras encima de uma única bicicleta que vinha desfilando pelo meio da ruazinha, muito suspeitos ao meu ver, e que o universo me perdoe se estiver errada, vieram me entregar a bendita bolsa, sem o celular, sem o carregador dele e sem meia dúzia de cigarros. Não levaram dinheiro, não quiseram meu relógio de custo mediano que estava dentro da bolsa. Agora o que eu aprendi dessa lição toda é que: companheiros que andam todos os dias nos ônibus mais perigosos da cidade, não comprem celulares legais, com câmera, mp3 e Bluetooth, você acaba dando de presente muito em breve para alguém que você nunca viu.

terça-feira, 27 de maio de 2008

A presença é o parâmetro da saudade


Lembro-me, não raras vezes, da expressão calma do seu rosto sobre meu peito, do olhar vago e ao mesmo tempo tão presente e sempre o primeiro a detectar _antes mesmo de mim_ as minhas vontades.Lembro a forma doce que me presenteava um sorriso e da sensação de um bem-estar profundo quando nós sorríamos juntos, as lágrimas tímidas que insistiam em permanecer alí, intactas, quando as palavras bonitas não eram consideradas descartáveis, porque elas traduziam os sentimentos mais intocáveis. Nada era inefável.Lembro-me dos nossos desejos conjuntos como no dia que queríamos chocolates suíços e das nossas disputas para comer o último bombom da caixa. Do dia em que nós decidimos juntar a galera toda pra jogar conversa fora em qualquer bar e justamente nós fomos os únicos a não ir, só pra ficar na sua casa, grudadinhos no sofá, ao som dos pingos de chuva na janela e assistindo um filminho velho na TV. Um dos beijos melhores da minha vida aconteceu naquela noite.Lembro, com toda clareza, todos os detalhes de todos os movimentos das nossas noites infinitas _sim, somente nossas, os únicos seres existentes e tão complementares_ as quais chegavam a serem dias tão rapidamente. O seu cheiro, aquela mistura equilibrada de uma vontade louca de me descontrolar com uma vontade sensata de abraçar, me atingia o cérebro, na parte onde o esquecimento da realidade era penetrável.Lembro-me da sua incrível habilidade de lidar com minhas preocupações banais, mas lembro de nunca ter perdido um dia inteiro para elas. Você sempre esteve com sua mão na minha mão, no meu cabelo, na minha nuca... Tudo isso para que eu não me arrependesse de ter tido um dia a menos. E eu nem sabia que cada dia estava sendo um dia a menos na sua vida, ao invés da minha.Lembro, e se você estivesse aqui poderia jurar por tudo que eu não lembraria, depois de dois longos anos, mas lembro perfeitamente das suas lágrimas quando escapei detalhes de meu funeral: a música, a doação de órgãos, as cinzas, o rio em que seriam jogadas... Detalhes desagradáveis que uma vez na vida deve ser dito a alguém que te conheça o bastante.E quem imaginaria, meu amor, que você partiria primeiro... E tão rápido! Levo a saudade, encostada em meu peito, em vez do teu rosto. O teu cheiro nunca mais senti senão em sonho: uma doce e agradável ilusão de um sentido. Os últimos chocolates agora sempre sobram. Até tento, mas não faço mais questão deles. A minha realidade nunca mais foi adormecida ou enganada e por fim tem sido dura. Sim, as lembranças tentam me acalmar, mas quase sempre são ineficazes; acabam por deixar um enorme vácuo dolorido, ainda. O vazio provém da tua falta. Isso sim é inefável.

Pronto, esse é o texto do qual falei o post passado. Estava esquecido em outro blog, mas tá aí. Um dos meus draminhas preferidos até agora.


segunda-feira, 26 de maio de 2008

"Nada vem de graça, nem o pão, nem a cachaça"

Zeca Baleiro ao cantar isso, jamais pensou o quão certo havia sido o que tinha dito, com certeza. Ao escutar também essa música pela primeiríssima vez eu não vi nada de tão extraordinário, porque parecia óbvio. Mas é mais do que isso. É extremamente filosófico. Extremamente expansivo e talvez a maioria das pessoas concordem comigo. Tudo tem um preço, e arrisco a dizer que até pra sonhar se paga caro. Claro, há uma repressão contínua, há os esforços para realização, há a inimizade da baixa estima, a força de vontade firme, o cansaço, as decepções. Que fique bem claro que o que proponho não se insere numa perpectiva apenas material, me refiro principalmente a uma atmosfera abstrata, como por exemplo os sentimentos. Se fosse apenas numa realidade material o texto sairia como bestial, já que é mais do que claro que numa sociedade diretamente originada da estrutura capitalista e sem jamais conhecer a cultura pobre em tecnologia, mas rica em valores verdadeiros, não existiria qualquer bem que para usurfruí-lo não tivesse que pagar monetariamente. Assim sendo, refiro-me mais curiosamente ao assunto relacionado a alma. O Amor, por exemplo. O Amor e toda essa idealização boa e salvadora da humanidade que o rodeia, nada mais é do que um produto pra ser comprado/trocado/consumido. Chamaria mais profundamente de subproduto, já que anda camuflado e, portanto, fingindo estar como cumpridor de uma missão tão enorme (melhorar o mundo), quanto a sua cara de pau. Apenas quem enxerga por trás das convicções, caro leitor, conseguirá armazenar, arrumar, entender e projetar o que está sendo dito. Como dizia Nietzsche: "As verdadeiras inimigas da verdade são as convicções" e não as mentiras. Essas estão escancaradas por aí; é só abrir os olhos. Mas as convicções... É preciso muito mais! INVESTIGAÇÃO e QUESTIONAMENTO. Não aceitar os conceitos prontos. Não aceitar que o amor seja encarado como um sentimento gentil, como o super herói valente e salvador dos pobres. É justamente através dele que acontece as injustiças. Os pobres só são pobres por causa desse amor, dessa caridade suja e ofuscada, dessa esmolinha concebida por cada um. De novo Nietzsche, todo amor é amor próprio, todo serviço é auto-serviço. O ser humano é egoísta por si mesmo e jamais sentirá o conceito de amor atual nas suas entranhas. É tudo muito bonito, tudo muito fácil. Infelizmente cobramos o "amor" que cada um sente por nós e somos cobrados o tempo todo, imperceptivelmente, por esse super herói grotesco. A partir daí percebe-se que tudo o que chamávamos de bom torna-se duvidoso, torna-se a natureza nojenta do homem. E aí nos perguntamos se é nessa hora que o mal vira bem e virse-versa.
- Esse texto já foi publicado por mim em outro blog, o bilhetinho-azul. Meu codinome era flor de lis nele, e apenas postei mais outro texto fora esse, que depois coloco aqui e do qual eu gosto muito.

domingo, 25 de maio de 2008

Irrealidade miserável


Às vezes me olho por fora, como uma outra pessoa, um eu interior incapaz de se sensibilizar com qualquer parte de si. Em um instante me encurralo na interrogação de qual seria o eu real, livre das aparências e das mentiras ditas para o próprio consolo. Cheguei a pensar que essa era uma parte desnecessária, caso estivesse armada de um irreal forte, mas caí de um penhasco quando percebi o grau de realidade a qual o mundo se perdeu. A minha redenção é feita na afirmação de que realmente o real é fundamental para a digestão das transformações futuras. Iludir-se menos e viver mais deve ser uma receita feita por algum chapado consciente. O que me resta é mastigar os pedaços de realidade que me sobra.